C.A.S.
POR UM POUCO DE INTELIGÊNCIA
Profissional da área de marcas desde os anos 80, não posso me furtar a uma opinião:
Um anônimo? Ele criou uma marca numa cidade do interior paulista para uma pequena empresa de calçados. Ele(a), ou eles(as), deve(m) ter gostado da sua obra. Mas ninguém jamais sonhou que ela ganharia tanta notoriedade. A marca é tosca, rústica, mal proporcionada. Mas está referendada por um produto nobre como a marca da Vale.
O que isto demonstra? Que existe muito talento escondido no Brasil! Volto a falar disso no final.
A marca da Vale, convenhamos, é uma beleza em termos de design: é suave e, ao mesmo tempo, vibrante e inspira novidade. Já entraram no site da Cauduro-Martino, ou da Lippincott-Mercer? Essas empresas simplesmente criaram algumas das mais importantes marcas históricas do paÃs (Banespa, Natura, Lojas Riachuelo, MRN, só para citar alguns exemplos), e do mundo. Têm background de sobra.
Seus profissionais estão entre os melhores do mercado mundial. O mundo do design deve muito a eles.
A Lippincott-Mercer é uma das escolas de branding mundial da atualidade. Muitos designers de diversas partes do mundo gostariam de trabalhar lá.
O design brasileiro deve muito ao corajoso, valente, batalhador e persistente arquiteto e urbanista brasileiro João Carlos Cauduro - um dos homens que revolucionaram o design de marcas nas décadas de 70 e 80. Basta dizer que ele é doutor em arquitetura pela FAU. Muitos designers não teriam emprego hoje se não fosse por pioneiros como o João. O trabalho dele merece respeito. Apenas isso: respeito.
Eles têm ciência suficiente para demonstrar a qualquer designer, de qualquer lugar do mundo, a qualidade da marca que produziram com os americanos, a despeito do que muitos “entendidos” querem forçadamente fazer crer (que ela é tecnicamente ruim, pouco criativa etc). Deixem a dor de cotovelo de lado. No fundo, todos nós gostarÃamos de ter ganho essa concorrência.
Não se trata de gostar ou não gostar. De achar que está bom ou ruim. Isto é primário!
É preciso entender que não se pode alegar que uma marca seja boa ou ruim (sim, existem as péssimas, mas estas eu as excluo), sem que se avalie qual é o núcleo de posicionamento e os atributos dessa marca.
Esses statements são a ponte entre as manifestações estratégicas do negócio e a iconografia da marca.
Não são coisas distintas: são uma só coisa representada em dimensões distintas. Por isso, não se pode avaliar a qualidade de uma marca, sem antes se dar ao trabalho de pesquisar minimamente o universo da marca.
Não se pode comparar uma importante e vencedora marca do mercado financeiro, com uma empresa regional de calçados (sem nenhum demérito!) e uma corporação global do setor minerário. Simplesmente porque as marcas não são comparáveis entre si, não querem e não devem transmitir a mesma coisa para os mesmos targets.
Não se comparam marcas, como não se comparam pessoas. As duas coisas são gafes feias e denunciam ou a ignorância, ou o preconceito. Marcas têm valor intrÃnseco.
Marcas mundiais, todas elas, sem exceção, tiveram comparações em diversas partes do mundo, com outras marcas - normalmente de empresas pequenas que já funcionavam havia algum tempo. Mas há casos realmente espantosos de marcas em um mesmo setor que se assemelham grandemente. A história do design mundial está repleto de casos como estes.
Poucos designers conseguem entender isso, mas duas marcas tão estudadas, tão conhecidas, e aparentemente tão distintas como a Pepsi e a Coca-Cola, guardam requintes técnicos de design absolutamente idênticos. ImperceptÃvel? Sim, para quem não tem profundidade técnica de conhecimento e não imagina o quanto de ciência há por trás do design, onde o velho ditado: “Nos detalhes reside toda a diferença”, alcança sua máxima expressão.
Profissionais sérios e competentes como os da Cauduro-Martino e Lippincott-Mercer, profissionais do naipe dos profissionais da Vale jamais se entregariam ao ridÃculo do plágio. Por uma razão muito simples: não precisam.
Entrem no site da Vale, conheçam a proposta da empresa e, depois, analisem o que a iconografia da marca expressa. Na minha avaliação há coerência. Posso não gostar desse ou daquele detalhe. No fundo a gente acha que sempre faria melhor… Mas devo ser honesto: está coerente. E boa, muito boa mesmo.
Vamos e venhamos: a Vitelli deu uma sorte inacreditável. Vai vender sapatos como nunca, neste final de ano. A Vale, bem … acredito que para uma empresa desse porte, acostumada a lidar com questões mundiais, isto não deva ser um grande problema.
Esses executivos de empresas como Petrobrás, Gerdau, Bradesco, Real, Vale etc, normalmente, têm muito mais coisas para fazer. Nas mãos de executivos como esses repousam decisões que podem definir milhares de empregos e alguns bilhões a mais ou a menos na balança comercial brasileira. Outra coisa: graças a essas grandes organizações nacionais, a educação, a saúde e o desenvolvimento regional ainda não faliram definitivamente no paÃs.
É preciso saber respeitar as instituições privadas, algo sem muito referencial no Brasil. Devemos ser implacáveis com organizações lesivas de qualquer modo à sociedade. Mas o que é de um paÃs sem empresas fortes?
O lançamento da primeira marca global do Brasil é algo para entrar nos anais do design brasileiro. Uma empresa de U$ 170 bilhões, com 100 mil empregados que se afirma “brasileira” diante do mundo todo não sabe o que está fazendo? (A marca alcançou em menos de uma semana após o lançamento, segundo a Interbrand,
o sétimo lugar em valoração no Brasil: R$ 2,8 bilhões.
Segundo os jornais divulgaram, será um investimento de US$ 50 milhões em quatro anos. E a marca já Vale R$ 2,8 bilhões (US$ 1,5 bi), em uma semana. Não acho que a Vale tenha feito um mal negócio, concordam?
Por que ao invés de propagarem a ignorância e a necessidade de dizer que se sabe alguma coisa, alguém não propõe algo verdadeiramente honesto e efetivo?
Exemplo bobo, simples: porque a Vitelli e a Vale não descobrem os criadores e patrocinam um bom curso de design para eles? Há talento visÃvel no trabalho da Vitelli. Mas há muita técnica a ser aprimorada ainda. O design ainda é pesado, maçante, sem a menor condição de comparar-se à s sutilezas muito bem sacadas da marca da Vale. Mas daà pode sair um novo João Cauduro.
Por que os jornalistas e blogueiros não vão atrás desse personagem? Sabe o que pode sair da� Uma história muito bonita. Agrega muito mais do que essa discussão enfadonha e desinformada que denuncia o quanto temos de caminhar no ramo do design no Brasil.
C.A.S. - S. Paulo.